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sábado, 16 de junho de 2012

Recall Emocional - O melhor post do mundo


Este post é candidato ao concurso “O melhor post do mundo da Limetree” 

Não tenho mais como me enganar.
O dia começou faz tempo lá fora e eu ainda estou na cama, deitada, com os olhos fechados, naquela luta interior para abri-los sem conseguir sucesso.
Estou a três dias nessa cama, faço somente o simples trajeto: banheiro-cozinha-cama e com poucas luzes acesas.
Prefiro não ver nada a minha volta.

Despertar é uma tortura, nem preciso abrir os olhos, o cheiro dele está na cama; e eu troco esses lençóis diariamente tem 32 dias, mas o bendito cheiro amadeirado continua lá.

Me levanto, cambaleio pelo quarto até a janela, abro as cortinas – tudo tem limite inclusive a depressão!

A claridade preenche todo quarto e vejo com nitidez tudo o que tentava esconder dos meus olhos esses dias.
Se torna impossível não vê-lo em cada detalhe desse quarto; o abajur anos 60 que achamos num brechó, aquela caricatura de casal horrível na parede - onde eu estava com a cabeça quando permiti esse quadro no meu quarto? Lembrei, estava amando e quem ama, faz concessões como esse horror na parede. - Nota mental: me livrar logo desse quadro! Ah, e comprar uma cama nova!

Entro no banheiro e me assusto com o que vejo no espelho, estou terrível, desgrenhada, amarrotada e com aquela expressão triste que só os traídos e abandonados conseguem demonstrar.
Naturalmente olho pro lado esquerdo, aquela maldita pia extra. – Que mania moderna é essa de colocar duas pias em um único banheiro? Pra que tanta individualidade se o banheiro é o mesmo? Seja lá qual o motivo que me convenceu na época, hoje olhar pra aquela pia extra, seca e vazia só me deprime.

Com esforço tomo uma ducha, lembro de minha mãe que dizia que qualquer coisa na vida ficava melhor depois que você tomar um banho. E ela estava certa.

Vou para o quarto novamente que me parece cada dia mais estranho, como se não fosse meu e abro o armário. Aquele espaço vazio quase grita pra mim. Entendo que a minha casa nao é mais minha. Aliás ela nunca foi, ela era nossa, em todos os detalhes e planos. O que faz com que hoje, me sinta agredida por móveis e paredes que me encaram como se me cobrassem a presença que já não sentem mais.

Me visto e percebo que na verdade, tudo o que preciso é me sentir normal novamente, me sentir amada, mesmo com uns fios brancos - os danados aparecem logo na franja - com uma barriga que começa a ficar saliente, com minhas manias, com minha gargalhada de porco. Preciso me sentir amada com todas as minhas caracteristicas para depois, poder olhá-las com calma e decidir qual preciso mudar ou abandonar.

Penso em chamar uma amiga para almoçar. Mas logo desisto. Tenho almoçando com amigas - tão queridas - muitas vezes e além de algumas fofocas e risadas a única coisa que cresce em mim é a barriga saliente por tanta comida, o que diminuiu de forma exponencial minha auto estima.

–Chega, eu preciso de soluções!
Talvez um retiro, um lugar onde o caos me dê paz, onde o cheiro me dê conforto, onde cada objeto me dê boas lembranças e pensamentos. Um lugar onde eu encontre a esperança novamente!

Essa casa que ocupo atualmente nem me quer mais aqui, tambem está se acostumando com as novidades da vida e ficamos nos magoando diariamente, eu, os móveis e as paredes.
Nada aqui preenche o vazio que está dentro de mim. Me sinto partida, esse era então o famoso coração partido que ouvia falar e não entendia ... às vezes a ignorância é uma benção!

Então é isso, eu preciso de um recall, de uma revisão completa, preciso da massa original para conseguir a emenda perfeita no meu coração já que não posso trocar pro outro. Eu sairia de lá como nova, pronta pra outra.

Decidida, peguei a mala... acabei lembrando da última viagem que fizemos, aquela praia, aquela brisa... - Nota mental: trocar de mala!

Coloco algumas peças meio desencontradas, não vou me preocupar com isso, pra onde vou ninguém vai notar o que vou vestir e outra, estou com o coração partido e isso me dá o direito de ficar estranha durante a recuperação.

Pego a samambaia ou o que resta dela no xaxim, bato a porta e simplesmente vou embora sem data para o retorno. Vou buscar meu retiro, meu lugar no mundo, o lugar que vai despertar em mim a certeza de ser amada com qualquer defeito e onde vou tratar da minha avaria emocional.

Pego o carro sem muita atenção. É como se as últimas forças que tenho me guiassem. Dirijo um tempo e paro o carro em frente a entrada. Meu coração fica mais mole e suspiro.
Procuro o molho de chaves na bolsa, a chave ainda está lá, nunca me desfiz. Me falaram pra levar sempre comigo pois um dia poderia precisar e hoje entendo o que significa.

Coloco a chave na porta, giro a maçaneta, pela pequena abertura o cheiro do conforto entra em meu nariz e imediatamente me faz sorrir.

Abro toda porta e grito:
-Mãe, cheguei!



ps. Não estou me divorciando , nem pensando, o conto é somente para ilustrar o que gostaria que minha casa significasse para minhas filhas.

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